Arte nos currículos escolares e também fora deles, conversa com Angélica Santana

Arte nos currículos escolares e também fora deles, conversa com Angélica Santana
Entrevista com Angélica Santana para o Jornal Lagoa News

Professora de arte há mais de 15 anos, formada pela Universidade Estadual de Minas Gerais, Angélica Santanna (47), como ela mesma descreve: “vejo a arte como refúgio e ferramenta de equilíbrio”.

Hoje, além da educação artística nas escolas com que já trabalha há algum tempo, abriu um ateliê de pintura com aquarela para ensinar outras pessoas a pintar e a se expressar por meio da pintura. Belo-Horizontina, mas que já vive em Lagoa Santa há 10 anos, nos contou como tudo começou, falou da desconexão das salas de aula e como a arte deve ser vista como algo ordinário e não produto das elites.

Primeiras pinceladas

Arte nos currículos escolares, conversa com Angélica Santana

Angélica cresceu sempre envolvida com as artes, mas não escolheu o meio artístico de primeira. Tentou outras faculdades que nada se pareciam com aquilo que, hoje, chama de profissão. Fez alguns anos de química industrial e ainda tentou psicologia quando percebeu que era hora de “bancar” o chamado artístico que tinha.

“Quando a gente faz o que a gente ama, é totalmente diferente”, declarou quando perguntei sobre o momento que percebeu que desejava trabalhar com a arte. Decidiu iniciar a licenciatura para educação artística, curso superior que forma professores para atuarem no ensino da arte em diferentes níveis. Mas na época ainda sonhava em viver da própria arte e não educar.

Entregar o pincel para o outro também é arte

Iniciou o curso entusiasmada com a possibilidade de viver do que amava fazer. No entanto, para concluir o curso, precisava dar aulas como maneira de aplicar o que vinha aprendendo. Foi quando deu sua primeira aula em um projeto social por pura obrigação e tudo mudou: “Fiz a coisa que eu quero fazer pro resto da vida”, disse a própria mãe quando chegou em casa.

Reconhecendo as dificuldades de ser professor no Brasil, pergunto para ela sobre a profissão e sobre as salas de aula: “A gente trabalha não por amor, mas com amor”, sem romantizar a profissão, deixou claro que precisa do sustento financeiro como qualquer trabalhador, mas que “educar é uma vocação” e que é preciso ter insistência para capturar a atenção dos alunos.

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Telas de ferro e telas de esperança

“Nos distanciamos da ideia de processo e do tempo que precisamos para conquistarmos as coisas.”

Aproveito o momento para perguntar sobre a atual discussão no que cerne às tecnologias e as mudanças que têm provocado na educação. Perguntei sobre a dificuldade de capturar os alunos com as telas inundando as salas de aula: “É uma luta diária você brigar com aquela bomba de estímulos (celular)”, afirmou.

Em uma era tumultuada e cheia de inovações, pergunto se ela acredita que as tecnologias como a inteligência artificial substituirão os caminhos artísticos: “As máquinas não podem substituir o que a gente faz. O processo é o que a gente deve valorizar”, disse. Comentou também sobre a necessidade de voltar a valorizar os processos e até brincou ao dizer: “planejar uma festa é cansativo, mas às vezes é mais gostoso que a própria festa”, disse.

Ao falarmos sobre a necessidade de valorizar a cultura brasileira e as suas valências sociais, criticou o status que a arte tem como produto elitizado: “A arte tem um status que ela não devia ter, a arte é algo ordinário. “A arte é humana”, afirmou. Em um país que teve a sua cultura local abafada pela europeia, entender que a arte deve ser democrática é papel do Estado, mas também dos artistas que reconhecem sua importância social, e Angélica Santana reconhece isso.

O cotidiano, a arte resistente e a inspiração

“O dia a dia te consome”, disse ao perceber que, depois que começou a trabalhar nas escolas, parou de se expressar artisticamente, pela falta de tempo, pela correria. E, após um dia de trabalho inesperado (evento que deixou em segredo aos nossos ouvidos curiosos), assim como aceitou o chamado no começo da jornada educacional, decidiu abrir na rotina um espaço para que pudesse “dar vazão” à sua alma artística.

Com o avanço da técnica e com o advento das grandes tecnologias, a arte mudou de rumo nas últimas décadas. Pergunto se ela acredita que o trabalho que realiza no seu ateliê é um ato de resistência:

“Sim, é um ato de resistência. É uma forma de pensar que existem as máquinas, são ferramentas excelentes, mas elas não podem substituir o que a gente faz. E o legal da arte é que a gente valoriza não só o resultado, mas o processo também.”, finalizou.

Questiono, por fim, onde procura inspiração para suas pinturas. Uma professora de artes busca inspiração nos grandes pintores impressionistas? Na filosofia de algum pensador centenário? Não, na natureza: “O ser humano fica tentando imitar a natureza, mas nunca chegaremos perto”, disse.

Toque final

Angélica nos recebeu em sua mais nova obra. Em um ateliê recém-reformado, com detalhes da sua personalidade em cada canto, com as paredes pintadas de tinta e com a natureza invadindo com suas plantas, podemos sentir o que tinha a dizer antes mesmo de começarmos a gravar. O café e o bolo que nos ofereceu abriram caminho para as risadas e uma conversa cheia de arte, sorrisos e esperança. A arte para Angélica imagina um mundo mais tranquilo, refugiado da ansiedade das rotinas precárias e com espaço para uma tela de esperança.

O Lagoa News agradece a oportunidade de contar um pouca da história da Angélica Santana  e reafirma o compromisso com a promoção da cultura da cidade e dos seus habitantes.

Ateliê e informações para interessados

O ateliê funciona em uma sala independente dentro da Casa Crioula, centro cultural que fica no Centro de Lagoa Santa. Para melhores informações pode entrar em contato pelo Instagram @atelie.angelicasantana ou @casacrioula.

Ateliê Angélica Santana, Professora de artes pela Universidade Estadual de Minas Gerais.

Oficinas e aulas de pintura em aquarela para todas as idades.

Turmas reduzidas – horários manhã e tarde.

Endereço: Casa Crioula, Rua Manoel C. Viana, 132 A.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Lagoa News

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