Correios no vermelho: Por que a Estatal acumula bilhões em prejuízos?

Correios no vermelho: Por que a Estatal acumula bilhões em prejuízos?
Foto: Divulgação/Correios

Os Correios brasileiros atravessam uma das piores crises financeiras de sua história. Com um prejuízo que saltou para R$ 4,37 bilhões no primeiro semestre de 2025 — três vezes maior que o mesmo período de 2024 — a estatal enfrenta desafios que vão muito além de questões operacionais pontuais.

O rombo financeiro revela problemas estruturais profundos que colocam em xeque a sustentabilidade da empresa estatal mais conhecida do país. Apenas no segundo trimestre de 2025, as perdas chegaram a R$ 2,64 bilhões, um resultado quase cinco vezes pior que o registrado no mesmo período do ano anterior.

Esta crise não surgiu do nada. É resultado de uma combinação explosiva entre a queda vertiginosa nas receitas e o crescimento descontrolado das despesas, criando um cenário que já levou a direção da empresa a alertar o governo federal sobre a necessidade urgente de socorro financeiro.

A “Taxa das Blusinhas” que mudou tudo

O principal vilão da crise dos Correios tem nome e sobrenome: a tributação sobre compras internacionais de baixo valor, popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”.

Como funcionava antes

Até 2024, compras internacionais de até US$ 50 eram isentas de impostos quando destinadas a pessoas físicas. Essa regra transformou os Correios na principal porta de entrada para milhões de pequenas encomendas vindas principalmente da China, gerando receitas substanciais para a estatal.

A mudança que quebrou o modelo

A implementação do programa Remessa Conforme pela Receita Federal mudou completamente esse cenário. Agora, todas as compras internacionais são tributadas:

  • Até US$ 50: Alíquota de 20% de Imposto de Importação
  • Acima de US$ 50: Tributação de 60%
  • ICMS adicional: Cobrança pelos estados, que pode chegar a 20%

Os números da queda

O impacto foi devastador para os Correios:

  • Receita internacional no 1º semestre de 2024: R$ 2,1 bilhões
  • Receita internacional no 1º semestre de 2025: R$ 815 milhões
  • Queda percentual: 61,3%

Apenas no segundo trimestre de 2025, as receitas desse segmento despencaram 63,6% em comparação ao mesmo período de 2024.

Concorrência privada e obrigações públicas

Os Correios enfrentam um dilema que nenhuma empresa privada precisa resolver: competir no mercado enquanto mantêm obrigações de serviço universal.

A pressão da concorrência

Empresas privadas de logística conquistaram os segmentos mais lucrativos do mercado:

  • E-commerce urbano: Dominado por empresas como Mercado Envios e Loggi
  • Entregas expressas: Controladas por DHL, FedEx e similares
  • Grandes volumes corporativos: Negociados diretamente com transportadoras

O peso da universalização

Enquanto isso, os Correios mantêm a obrigação legal de:

  • Atender todos os 5.570 municípios brasileiros
  • Manter agências em locais não rentáveis
  • Oferecer serviços padronizados em todo território nacional
  • Garantir preços acessíveis para a população

Essa assimetria cria uma situação insustentável: os concorrentes ficam com o “filé mignon” do mercado, enquanto os Correios arcam com os custos da capilaridade nacional.

Explosão de gastos em meio à crise

Paradoxalmente, enquanto as receitas despencavam, os gastos dos Correios cresceram exponencialmente.

Despesas administrativas fora de controle

As despesas administrativas saltaram de R$ 1,2 bilhão para R$ 3,4 bilhões em apenas um ano — um crescimento de 183%. Este aumento inclui:

Gastos com pessoal

  • Reajuste de 4,11% para mais de 55 mil funcionários
  • Retorno da gratificação de 70% sobre férias
  • Crescimento de 9,5% nos custos totais com pessoal no segundo trimestre

Precatórios judiciais

  • R$ 1,59 bilhão pagos no primeiro semestre de 2025
  • Crescimento de 498,9% em relação a 2024
  • Apenas no segundo trimestre: R$ 1,2 bilhão em precatórios

Situação financeira crítica

A empresa também enfrenta:

  • R$ 600 milhões em faturas em atraso com fornecedores
  • R$ 2 bilhões em obrigações pendentes no final de junho
  • R$ 1,8 bilhão em novos empréstimos contratados em 2025

Tentativas de recuperação

Diante do cenário crítico, os Correios implementaram algumas medidas de contenção:

Programa de demissão voluntária (PDV)

  • 3.500 funcionários aderiram ao programa
  • Economia estimada: R$ 1 bilhão em 2026
  • Redução da folha: Impacto positivo nos custos de pessoal

Diversificação de receitas

  • Lançamento de um marketplace próprio
  • Venda de imóveis não operacionais
  • Busca por novos serviços financeiros

Negociação de crédito

  • Solicitação ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) do BRICS
  • Foco em modernização logística
  • Investimentos em tecnologia

O futuro dos correios

A crise dos Correios vai além de números no vermelho. Representa um dilema sobre o papel das estatais na economia moderna e os desafios de manter serviços universais em um mercado cada vez mais competitivo.

Cenários Possíveis

Cenário 1: Socorro Federal
O governo pode decidir por um aporte de recursos, mas a equipe econômica já sinalizou que não há folga orçamentária para tal medida.

Cenário 2: Reestruturação Radical
Mudanças na legislação que permitem maior flexibilidade operacional e tarifária, reduzindo as obrigações de universalização.

Cenário 3: Parcerias Público-Privadas
Concessão de serviços específicos para empresas privadas, mantendo os Correios em atividades essenciais.

Lições para o setor público

A crise dos Correios oferece lições importantes sobre gestão de empresas estatais:

  • Adaptação regulatória: Mudanças de política pública devem considerar impactos em empresas estatais
  • Modernização operacional: A digitalização e eficiência são essenciais para competitividade
  • Equilíbrio social vs. comercial: É preciso encontrar formas sustentáveis de manter serviços universais

A situação dos Correios não é apenas um problema empresarial, mas um reflexo dos desafios que o país enfrenta para modernizar suas instituições públicas mantendo seu caráter social. A resolução dessa crise será um teste importante para a capacidade do governo de equilibrar eficiência econômica com responsabilidade social.

Fontes: G1, O Tempo e TechTudo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Lagoa News

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