O que Lagoa Santa tem a dizer: Nanci Alves conversa com o Lagoa News sobre cultura, jornalismo e memória

O que Lagoa Santa tem a dizer: Nanci Alves conversa com o Lagoa News sobre cultura, jornalismo e memória

O jornalismo, a cultura e a memória se misturam em uma conversa com a jornalista aposentada, radialista, atriz e ativa influência cultural de Lagoa Santa, Nanci Alves. Com um caráter artístico em tudo que fez na vida, nos apresentou um pouco de sua história, sempre envolvida com o teatro e hoje com uma meta fiel: mostrar para o mundo o que Lagoa Santa tem a dizer. Eu e meu colega Léo Gabriel sentamos e a ouvimos.

Com quem falamos?

Nanci Batista Alves, 63 anos, nascida em Lagoa Santa, filha de Maria Rosa Alves e João Batista Alves (conhecido como João Lanterneiro), formou-se em jornalismo aos 22 anos e trabalhou a vida toda com jornalismo. Apesar disso sempre amou o teatro e esteve sempre envolvida com a arte, o que a permitiu ter um olhar diferente sobre a cultura e o jornalismo, não só como artista e não só como jornalista, mas como uma coisa só.

nanci alves - lagoa santa
Nanci Alves

No jornalismo, iniciou a carreira na TV Alterosa, paralelo à faculdade, onde iniciou um estágio de jornalismo. Na TV, conheceu atores que acabaram mudando sua trajetória dentro da profissão. Se aposentou, mas continuou trabalhando por mais 3 anos quando enxergou que tinha uma fome por fazer cultura e por fazer teatro, mas não em qualquer lugar, na sua cidade, em Lagoa Santa.

Onde o jornalismo encontrou a cultura

Uma jornalista que se envereda para cultura pode acontecer, o jornalismo tem esse contato com diversas áreas artísticas, mas como isso aconteceu com a Nanci Alves? Durante nossa conversa, perguntei sobre como a cultura assumiu um espaço tão grande na vida de uma formanda de jornalismo: “Não existia faculdade de teatro na época, e como as duas coisas que eu queria fazer eram jornalismo e teatro, acabei escolhendo estudar jornalismo”, afirmou.

Iniciou carreira como jornalista no Clubinho da Tia Dulce. Foi para lá como estagiária, depois auxiliar de produção, até que conheceu um grupo de teatro que se apresentava dentro do próprio programa, que a convidou a fazer uma peça. Trabalhou com o grupo por alguns anos e se apresentou em vários lugares, inclusive em bares, em todo o Brasil.

Cíclica e otimista

Depois da TV Alterosa, trabalhou em canais de comunicação, entre eles o Jornal Integração, que era uma parceria de duas rádios. Fez parte do grupo que criou um jornal às 7 da manhã que funcionou por alguns anos e nos contou como recebia fitas cassetes dos jornalistas e escolhia o que entrava e o que não entrava no jornal. Nesse momento da conversa perguntei: “O que você acha que mais mudou no jornalismo de quando você trabalhava para agora?”

E ela me respondeu com sinceridade: “A vinda da internet facilitou a checagem de fontes ao mesmo tempo que multiplicou a quantidade de notícias e a sua velocidade, mas fez com que o jornal impresso perdesse espaço”, disse.

E completou me dizendo, com otimismo, que tinha uma teoria sobre a vida e sobre o jornalismo: “Tudo é cíclico, a vida é cíclica, as coisas vão e voltam”, ela declarou, explicitando que acha que o impresso pode voltar e que algumas pessoas sentem falta desse contato com os jornais, até mesmo com os livros, quando disse que muitas não abdicam de ter as versões físicas, assim como ela e quem os escreve aqui.

Voluntária e ativa culturalmente desde sempre

Na época em que ainda era jornalista, fez parte de uma ONG, a Amepe, onde guiou um projeto chamado Carretel de Invenções, inspirado no livro do Francisco Marques. O programa trazia crianças para falar sobre os direitos das crianças. Na época, o projeto foi reflexo da aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e tinha como objetivo atingir a “cidadania real”, onde quem é afetado tem espaço para falar e entender seus direitos.

Me explicou como esse programa se espalhou pelo Brasil e como foi importante para ela, chegando a fazer mais de 400 programas que foram distribuídos em diversas rádios: “Programa feito para criança com a criança”, nas palavras da própria Nanci Alves, que ainda me permitiu complementar e dizer: “Não tem como fazer cidadania sem a pessoa presente”, finalizei. A ideia era justamente promover debate público sobre os direitos infanto-juvenis com as crianças e os adolescentes no centro.

Mudanças da cidade

Nanci morou muito tempo em Belo Horizonte por causa do trabalho, mas quando voltou com os filhos, viu a cidade mudar. 24 anos morando em Lagoa Santa, assistiu o município crescer muito e junto disso toda uma cultura local que se alterou, mas que do seu ponto de vista não podia abandonar sua história. Por isso, iniciou o projeto “Cultura no Rádio e nas Redes” na rádio 87,9; sempre trazendo artistas do município para falar quão rica era a cidade. Já com um objetivo, na época, de manter viva a memória de toda uma população.

“A gente não conhece as pessoas como antes”, afirmou, explicando como essas mudanças culturais que viu iniciaram nela um processo de reflexão sobre a memória da cidade. Disse também como valia a pena mostrar para as pessoas a história municipal através das memórias dos habitantes. Uma maneira mais pessoal de enxergar a nosso passado e também uma forma de trazer de volta a oralidade que se perdeu com as tecnologias.

Memórias da Lagoa

Talvez o que ela mais falou comigo no dia foi sobre a memória da cidade, e nada mais justo do que ter um programa próprio chamado “Memórias da Lagoa”. O programa consiste em uma transmissão de rádio realizada justamente no local onde realizamos a entrevista com ela, na única rádio da cidade, “A voz de Lagoa Santa” (87,9). Nessa conversa, ela traz para a mesa pessoas de mais de 80 anos para contar histórias que carreguem a cultura e historicidade do município.Os dois primeiros programas foram realizados com historiadores para contar a história antiga e até mesmo pré-histórica da cidade.

 Uma das histórias que aprendeu com o programa foi sobre o hospital da aeronáutica, que não era para ser o que é. Foi construído para ser um sanatório para pessoas com tuberculose que não foi aprovado pela vigilância por não possuir rede de esgoto na época. Quem contou para ela foi a Dona Cândida, de 90 anos, que nasceu e ainda vive na cidade. Falou também sobre como descobriu que houve uma época em que as mulheres entravam na lagoa central para pegar “junco”, uma planta que ficava no fundo da lagoa, que era usado para fabricar um tipo de “tela” têxtil que protegia os móveis.

Espaços de fala e as Luzias

Durante nossa conversa, em diversos momentos, falamos sobre a necessidade de Lagoa Santa possuir locais em que a cultura possa florescer. Nanci foi repetitiva ao explicar como a falta de centros culturais enfraquece o movimento artístico. Ela também se demonstrou chateada com a falta de um lugar que possa resguardar a memória da cidade, assunto que realmente permeia todas as atividades da também atriz.

Além desse grande enfoque na cultura, Nanci também é uma ativista que se preocupa como vivem as mulheres da cidade. Ela faz parte de um coletivo feminista preocupado em explicar e disseminar os direitos das mulheres: “As Luzias são um coletivo feminista daqui de Lagoa Santa, que começou justamente pela alta de casos de violência doméstica na cidade e que a gente nem ficava sabendo”, explicou.

Frisou também a importância dessas mulheres e toda a população lagoa-santense conhecer seus direitos para que possa fiscalizar e fazer parte da implementação de políticas públicas para proteção e prevenção da violência doméstica, assim como para todos setores da vida pública.

Lei Aldir Blanc e denúncia de descaso

A Lei Aldir Blanc de Fomento à Cultura, instituída pela Lei nº 14.399, de 08 de julho de 2022, tem como objetivo fomentar a cultura em todos os estados, municípios e Distrito Federal. A lei funciona em ciclos de repasses financeiros. E no primeiro (ciclo) que se encerrou em 2024, tivemos no final do ano uma denúncia na Câmara de Lagoa Santa, presidida pelo vereador Marcelo Monteiro.

A acusação dos artistas era de que a Prefeitura estaria tratando com descaso a aplicação da PNAB e que a própria Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Cultura de Lagoa Santa estaria jogando contra: “temos uma gestão da política cultural nas mãos de pessoas que jogam contra”, afirmou Phllipe Lobo, artista local.

Pergunto para ela sobre a denúncia e sobre o início do segundo ciclo da PNAB:

D= “Agora que o segundo ciclo da PNAB se inicia, você, como uma agente ativa que está envolvida na cena cultural, acredita que a sociedade civil e as autoridades têm realmente feito parte desse processo para que ele progrida?”

N= “A cidade ainda está um pouco atrás nesse processo, e precisa de um sistema cultural próprio” e complementou “A gente faz parte desse processo, inclusive, fizemos uma proposta de um sistema municipal de cultura, enviamos para a prefeitura e agora, com essa força que demos enquanto artistas, esperamos que a prefeitura possa implementar”.

O mundo muda, o jornalismo muda

Ao fim da entrevista, comigo já bem iniciado no poderio de assuntos que colocamos em pauta naquele dia, conversamos sobre as mudanças no mundo, mas não só isso. Também discutimos o papel da cultura e do jornalismo na proteção da sociedade da desinformação e da disseminação acelerada das inteligências artificiais, conhecidas como IAs.

Falei com ela sobre a velocidade da informação e sobre a pressa para ser os primeiros a publicar as notícias, e então perguntei como isso afetava o jornalismo, ela me disse que era preciso checar mais, ser exato e diminuir a pressa: “A pressa por dar notícia permite mais erros, por isso precisamos checar mais” e continuou “O importante não é ser o primeiro e sim falar o que é”, disse a jornalista reformada.

Além disso, disse que as pessoas se informam pelas manchetes e que não checam a veracidade do que leem: “As pessoas não leem mais a matéria completa, querem ler só a manchete, só que muitas vezes a matéria é falsa e repassam sem checar”, afirmou. E ainda completou dizendo que as IAs, nessa era da informação rápida, poderiam ser usadas para aplicar golpes: “E é claro que as pessoas que gostam de dar golpe vão usar isso (inteligência artificial)”, disse preocupada.

Último ato

Nanci nos ilustrou seu ponto de vista através dos diversos projetos dos quais faz parte. O Memórias da Lagoa, que eu pude acompanhar ao vivo na última sexta-feira, dia 4, tenta valorizar a história de uma cidade que cresce com investimentos forasteiros, mas que deve também lembrar do que já foi para não se perder na jornada. O grupo de teatro e o fórum de cultura buscam manter esse processo alinhado com o desejo dos artistas locais e fiscalizar a atuação do poder público com a valorização da cultura municipal. Já o coletivo pretende proteger e principalmente conscientizar sobre os direitos das mulheres lagoa-santenses.

Durante 1 hora e meia, eu e meu colega Léo conversamos e ouvimos Nanci Alves contar sua história que ia do jornalismo de fitas cassete, das rádios, do teatro na TV, no palco e na rua; até os seus apelos pela cultura de Lagoa Santa e da preocupação direcionada a essa geração digital, que inclui crianças e adultos.

Contudo, também podemos sentir o seu otimismo perante as mudanças no jornalismo e na própria cultura que tem tomado os tons de uma época em que o digital às vezes ocupa o espaço do humano, mas em que Nanci insiste na importância de se adaptar a essas tecnologias. Porém, sempre olhando para dentro de nós antes de agir, como uma forma de se manter crítico àquilo que muda na cultura, no jornalismo e no mundo. Além disso tudo, algo que a Nanci disse já no final dos agradecimentos me deixou refletindo: “o bom jornalismo é aquele que ouve”.

O nosso objetivo enquanto jornal de Lagoa Santa é ouvir todos os lados e disseminar jornalismo, cultura e as mudanças da cidade, que devem vir para melhorar a qualidade de vida de quem chegou agora, mas também de quem já vive aqui há anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Lagoa News

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Davi Tufic Barreto - Lagoa News

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